Jason Hickel - É o decrescimento o futuro da humanidade?
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Hickel apresenta na obra “Less is More: How degrowth will save the world”uma teoria radical: o decrescimento económico. A palavra em si é estranha e a ideia talvez ainda mais, especialmente para nós que vivemos num sistema económico obcecado pelo crescimento infinito. Somos bombardeados por constantes notícias e análises sobre o crescimento económico, que é apresentado como um fim em si mesmo, uma necessidade intrínseca à nossa sobrevivência e bem-estar. À primeira vista é difícil de criticar. Quem é que não quer crescer? Não queremos todos ficar mais ricos? Hickel argumenta que não é bem assim.
Para perceber esta ideia tão contraintuitiva é preciso, primeiro, percebermos que o crescimento económico não é algo abstrato. Tem uma realidade material, representa mais plástico produzido, mais energia consumida, mais CO2 emitido, mais lixo acumulado. Vejamos o caso da IA, que aparentemente seria algo imaterial, mas que o seu consumo exige grandes quantidades de energia e água, já para não falar do hardware. Outro ponto é que o crescimento económico não é necessariamente útil. Por exemplo, 5 mil milhões gastos em armas ou em saúde têm o mesmo impacto no PIB mas não têm a mesma utilidade para a vida humana, inclusive o impacto ambiental das armas pode bem ser maior.
Isto tudo se passa no meio de uma emergência climática. Num mundo com os recursos levados ao limite, com crises ambientais constantes, que já sentimos na pele todos os anos, em que já hoje há refugiados ambientais que só tenderão a aumentar, onde milhares morrem todos os anos devido à poluição. Mesmo assim, até os objetivos modestos, como o Acordo de Paris, parecem hoje uma miragem fantasiosa, demasiado difíceis de executar.
Hickel é contundente, problema tem nome: capitalismo. O capitalismo precisa de duas coisas. A primeira é crescimento infinito, um investimento tem de gerar lucro, caso contrário investe-se noutra coisa, os acionistas precisam dos seus dividendos e os credores dos juros, sem isto o ativo desvaloriza e o sistema colapsa, mas como disse Edward Abbey “crescimento por crescimento é a ideologia do cancro”. A outra coisa que o capitalismo precisa é de externalizar custos, seja através da exploração do trabalho ou da natureza, precisa de maximizar o lucro não pagando o valor total do que gasta, por exemplo, escoando resíduos para um rio ou emitindo gases para a atmosfera.
Importa aqui recordar que o nível de poluição e de recursos gastos não é igual para todos. Per capita os países mais pobres poluem menos que os mais ricos, sobretudo quando temos em conta a pegada ecológica, isto é o que polui os produtos consumidos e não só os produzidos num país. Também nos indivíduos a diferença é grande, os 10% mais ricos do mundo são responsáveis por 50% da poluição e o 1% mais rico poluí mais que a metade mais pobre da humanidade.
Mas há aqui um ponto de otimismo em Hickel, aliás indispensável para quem se propõe a ser um agente de mudança, não é preciso voltar à idade da pedra para reduzir os gastos, é até possível melhorar a nossa qualidade de vida (por exemplo trabalhando menos horas) enquanto reduzimos o consumo geral da sociedade, precisamos antes de reduzir gastos desnecessários e focar o sistema económico não no mercado mas em necessidades concretas. Algumas medidas não afetariam a vida de quase ninguém, por exemplo banir jatos privados ou mega-iates, outros podiam exigir mais trabalho, como reduzir a utilização de carros por transportes públicos. Há ainda os que necessitam de ação política, como a redução do crescente desperdício de recursos em guerra e trabalhar antes por um grande movimento pacifista.
Exige-se então uma mistura entre soluções individuais que não devem ser desprezadas com soluções coletivas, mas falta ainda o último elemento, as soluções sistémicas. Como referido o capitalismo necessita de crescimento e desperdício. Hickel sugere uma total reconfiguração do sistema financeiro e uma diminuição acentuado das desigualdes, usando os governos para guiar o investimento privado para áreas que beneficiem a sociedade e não cegamente o mercado, ou até banindo o poder dos bancos criarem moeda e de emprestarem acima das suas reservas.
Para quem esteja a ler e pense: “pois é tudo muito bonito, mas onde é que isso funciona? Onde é que há altos padrões de vida e pouca poluição?” Certamente que em todos os países há muito a fazer, mas Hickel dá dois exemplos, a Costa Rica e Cuba, ambos com pequenas pegadas ecológicas apesar de elevadas esperanças médias de vida e níveis educativos, no caso de Cuba conseguidas sob uma enorme campanha de sabotagem económica hoje intensificada.
Todas estas soluções podem parecer penosas, ou até utópicas, mas peço que consideremos a escala do problema que hoje temos pela frente. As alterações climáticas são o maior desafio que a humanidade já enfrentou, os seus efeitos já se sentem, já são desastrosos e a tendência é só para piorar, há ecossistemas sensíveis dos quais dependemos que estão em risco, há uma beleza intrínseca na natureza e na vida na terra que é o nosso dever proteger. Vale a pena sacrificar isso tudo por uma sociedade de consumo desenfreado? Por um sistema que nos vê apenas como ativos? Ou chegou a altura de colocar o futuro da humanidade à frente do futuro do capitalismo?



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